"E, enquanto tirava os instrumentos do
estojo, pediu às mulheres que se juntassem ali à volta, para ajudarem a
irmã a trazer o bebê ao mundo. [...] pôs os seus dois tijolos no
chão e disse a Lea que daí a nada teria de apoiar-se neles. Pôs-me a mim e
a Zilpah de cada um dos lados para dar apoio a Lea, quando esta
se agachasse sobre uma cama de palha limpa. Zilpah e eu fizemos
de cadeira, passando-lhe os braços em volta dos ombros e por
baixo das coxas. - Sua sortuda - disse Inna a Lea, que por aquela
altura não se sentia minimamente sortuda. - Olha para o trono real de
irmãs que tens!"
Desde o
princípio dos tempos, o parto era uma ocasião plenamente feminina e, portanto,
cercado por mulheres. Este trecho do livro A Tenda Vermelha relata muito
bem como era o papel de cada uma delas no cenário mais forte e também mais
atemorador da vida de uma mulher, e a importância dessa rede
de apoio, que oferece segurança e força, como se fossem um só corpo a
parir, dividindo entre si as dores e tornando a passagem mais branda.
O parto é um
evento fisiológico, sim, porém marcado por uma forte representação social e
cultural. Não é somente colocar para fora o fruto da concepção. Mais do que
"fazer nascer", parir é mudar, transformar. De menina a mulher. De
mulher à mãe. De "mãe de primeira-viagem" a mãe de
dois, três, quatro, cinco filhos, não importa quantos, pois cada
experiência de parto é unica.
Infelizmente
nos últimos anos nós perdemos esse relacionamento tão próximo de cuidado e
carinho. Com tantos afazeres e corre-corre da vida moderna, as mulheres estão
cada vez mais passando sozinhas por esta ponte, e sem o apoio daquela fortaleza
feminina, têm se sentido fragilizadas, engolidas por um sistema que as faz crer
que são incapazes de gerar, de parir, de criar. Antigamente e a até um
tempo atrás, a mulher gestante era acompanhada durante o trabalho de parto e
parto por mulheres experientes, geralmente da própria família e que já tinham a
experiência materna. E mesmo depois do parto, nas primeiras semanas de vida do bebê,
aquela mãe estava sempre cercada de mulheres que a auxiliavam no aleitamento,
nos afazeres da casa e na estruturação das relações na nova família. Hoje nós
nos esforçamos para passar por tudo isso sozinhas.
Este espaço é mais um pequeno passo em direção
ao resgate daquela força coletiva, feminina; um lugar de apoio e afeição,
carinho e segurança, alento e fortaleza. Sejam bem-vindas para trocar
informações, relatos, desabafos e, principalmente amor, muito amor, pois ele é
a liga que mantém tudo isto junto e pulsando.