quinta-feira, 16 de julho de 2015

Irmãs de Parto



                     "E, enquanto tirava os instrumentos do estojo, pediu às mulheres que se juntassem ali à volta, para ajudarem a irmã a trazer o bebê ao mundo. [...] pôs os seus dois tijolos no chão e disse a Lea que daí a nada teria de apoiar-se neles. Pôs-me a mim e a Zilpah de cada um dos lados para dar apoio a Lea, quando esta se agachasse sobre uma cama de palha limpa. Zilpah e eu fizemos de cadeira, passando-lhe os braços em volta dos ombros e por baixo das coxas. - Sua sortuda - disse Inna a Lea, que por aquela altura não se sentia minimamente sortuda. - Olha para o trono real de irmãs que tens!"

Desde o princípio dos tempos, o parto era uma ocasião plenamente feminina e, portanto, cercado por mulheres. Este trecho do livro A Tenda Vermelha relata muito bem como era o papel de cada uma delas no cenário mais forte e também mais atemorador da vida de uma mulher, e a importância dessa rede de apoio, que oferece segurança e força, como se fossem um só corpo a parir, dividindo entre si as dores e tornando a passagem mais branda.
O parto é um evento fisiológico, sim, porém marcado por uma forte representação social e cultural. Não é somente colocar para fora o fruto da concepção. Mais do que "fazer nascer", parir é mudar, transformar. De menina a mulher. De mulher à mãe. De "mãe de primeira-viagem" a mãe de dois, três, quatro, cinco filhos, não importa quantos, pois cada experiência de parto é unica.
Infelizmente nos últimos anos nós perdemos esse relacionamento tão próximo de cuidado e carinho. Com tantos afazeres e corre-corre da vida moderna, as mulheres estão cada vez mais passando sozinhas por esta ponte, e sem o apoio daquela fortaleza feminina, têm se sentido fragilizadas, engolidas por um sistema que as faz crer que são incapazes de gerar, de parir, de criar. Antigamente e a até um tempo atrás, a mulher gestante era acompanhada durante o trabalho de parto e parto por mulheres experientes, geralmente da própria família e que já tinham a experiência materna. E mesmo depois do parto, nas primeiras semanas de vida do bebê, aquela mãe estava sempre cercada de mulheres que a auxiliavam no aleitamento, nos afazeres da casa e na estruturação das relações na nova família. Hoje nós nos esforçamos para passar por tudo isso sozinhas.
Este espaço é mais um pequeno passo em direção ao resgate daquela força  coletiva, feminina; um lugar de apoio e afeição, carinho e segurança, alento e fortaleza. Sejam bem-vindas para trocar informações, relatos, desabafos e, principalmente amor, muito amor, pois ele é a liga que mantém tudo isto junto e pulsando.